Sobre seleção natural ou de onde vem o desejo…
A proposta dele foi clara:
- Escreve alguma coisa pro blog!?
-Claro – respondi, ali na calçada, sem refletir, ainda sob efeito de nossa conversa recém interrompida (nunca finalizada) pela obviedade do tempo e de nossos afazeres.
Achei então que o melhor seria justamente aproveitar o gancho da qualidade de nossa troca e desdobrá-la aqui, na forma de palavras. Ou seria mais honesto dizer, continuar a sublime confusão de idéias que sempre restam desses encontros com o inquietante Barão. : )
Em algum lugar entre o tarô mitológico, a crise econômica, o Flusser, os relacionamentos e o Biodesign, falávamos de um incrível conceito de: SELEÇÃO NATURAL DOS OBJETOS!! Que Darwin nos perdoe por essa sobreposição, mas conceitos como adaptação e evolução cabem como uma luva (pra usar uma expressão bem “designiana”) na nossa imaginativa trajetória.
Além do mais….design nunca foi mesmo um exemplo de vocabulário próprio, né? A gente se apropria o tempo todo das “ciências” vizinhas pra conseguir se expressar, seja a música: -huumm, isso não está harmônico!!
ou a física!
-precisa de mais leveza!
Ou qualquer outra região do conhecimento que consiga explicar o “gostoso de pegar” ou as onomatopéias todas, acompanhadas de movimentos com as mãos! [1] Então por que não a biologia??
Por exemplo, eu não consigo imaginar um dia a gente não precisar mais de um copo, assim como eu não pude imaginar no passado que hoje precisaria tanto de meu mp3 player, assim como dou graças a deus de poder usar hoje um sutiã, e não um espartilho!
Eu poderia simplesmente dizer que são processos sociais e tecnológicos que o design catalisa e transforma em objetos ou, são questões de marketing e consumo.
Mas olha, talvez aquele objeto simplesmente não tenha “sobrevivido”! Na venda, na produção ou no desejo de alguém. Ele não se adaptou a seu “ecossistema” e desapareceu, enquanto outros, evoluíram e tornaram-se indeléveis de nossa cultura material!
Quem primeiro me falou em design e ecossistema foi o Carmelo di Bartolo, professor italiano, especialista em Biônica e novos materiais. Estive em seu escritório em Milão, um espaço muito interessante onde computadores coexistem com muitas plantas, eu me senti verdadeiramente em uma estufa! Lá ele me disse: - o designer tem que saber se adaptar ao ecossistema dos objetos!!
Poxa, são eles se adaptando e somos nós também, eles existindo, nós escolhendo. Pois é, foi di Bartolo também que disse uma frase que adoro e que uso a rodo em sala de aula (outra expressão “designiana”). Ele disse que “fazer design é escolher pelos outros”.

Juliana Bertolini e Carmelo di Bartolo no estúdio do professor em Milão
Os designers fazem escolhas dentro de seus desejos, destas dá forma a alguma coisa [2] , que ressoe com o desejo de alguém, ou então o provoque, e aí acontece um encontro, um encontro de desejos! Pode ser que o encontro não aconteça! E aí talvez aquele objeto tenha que deixar de ser: desejo solitário e estático.
Como não lembrar de uma cena do filme “Adaptação” contando a paixão de alguns insetos por algumas orquídeas, que por terem a forma muito semelhante a eles, os fazem pensar que são seus pares. Então pousam ali e começam um “acasalamento” solitário. A orquídea não é seu par, mas o inseto a ama, iludido pela falsa imagem, e é graças a essa atração “cega” que a orquídea é polinizada e segue existindo. Se não houvesse essa paixão, não haveria polinização.
Então a continuidade ou não de alguma coisa,,,será tudo uma questão de paixão?
Ah, o amor….
[1] Não pude deixar de lembrar da bela exposição “Che cosa è il design italiano?”, que tive a felicidade de ver na Trienale em Milão ano passado. Na tentativa de enumerar os elementos que influenciam o design italiano, o primeiro era: la mímica! “ A teatralidade é uma antiga fonte que ainda influencia o design italiano” .Será que isso explica toda a movimentação de mãos?? Mas isso dá um outro texto…
[2] Segundo Heidegger, uma coisa é um não-nada! Uau,,,isso dá outro texto…
Juliana Bertolini (designer/estilista/professora/pesquisadora e muitas coisas mais) - www.julianabertolini.com
jubertolini@gmail.com
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40 respostas para “ Sobre seleção natural ou de onde vem o desejo… ”
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Não vejo a hora em que a “natureza” irá extinguir o terno como uniforme de trabalho masculino. Imagino os homens indo trabalhar aliviados de bermuda, camisa curta e chinelo (tudo bem projetado e harmonioso), diminuindo o seu desgaste físico e o consumo de ar-condicionado dos prédios.
haha,,
Cândido!
talvez a gente tenha que fazer com que ele ” entre em extinção”. Caça ao terno!!! : )
OI JUU
Jah li e jah gostei, a forma como escreve, nao conhecia ainda… o nao nada… o desejo dos outros enquanto fundamentacao da escolha do designer… a questao da paixao enquanto selecao natural dos objetos… e ai vai, muito bem fundamentada… escritorio milao inaudito, o respiro dos objetos e o nosso, eles em si, existentes, e nos na escolha…. agora quero ler a da coisa que eh nao nada tb q disse q d’a outra mat’eria…
parab’ens’!!!
beijos
GErmano
A seleção natural pode ser cruel… que diga meu “mini” carro o BR800… embora seu design seja um pouco “quadrado” seu charme e sua bandeira “nacionalista” bem que poderiam ter VENCIDO o “ambiente” que na época éra de carrões. É uma verdadeira LOVEMARK, mais isso é praticamente outra “matéria” rsrs…
Parabéns pela matéria e por esse blog bem legal.
W Lucio
wa! podes crer!! ainda bem q restou a SUA paixão pelo carrinho! heehhe..
Então WA, esse é blog do Nó Design,,
Então Nós Designers, esse é o Wagner!! Acho que ele também poderia dar uma contribuição bacana aqui, sobre Marcas…
(foi feita a apresentação!!!) : )
Ju, vou transferir pra ca o que já te disse por email. Adorei o texto! mas a continuidade (ou não) de alguma coisa é uma questão de desejo (mas isso dá uma tese, a minha
)
Tudo começa pelo desejo, um desejo que não é a falta (dos psicanalistas), mas pura potência que escorre, que flui por entre as frestas da “paixão”, que, de tão cega, tenta fixar o que é fluxo, enquanto o (fluxo de) desejo passa, como o rio pela árvore, apenas dizendo “olá”. “Ouvir” ou não este “olá” é uma questão de escolha. Design é (também) uma questão de escuta.
oi juliana!
gostei do texto, de fato instigante e apontando pra várias direções, como as referidas conversas com o barão (ou entre nós? ou entre todo mundo e qualquer um?
, mas surpreendentemente objetivo.
e sim, é preciosa e precisa a frase do italiano: “escolher pelos outros”.
acho que a diferenciação entre a “seleção natural” dos objetos e a seleção natural ecológica é que talvez não haja nada de “natural” na primeira…
(por outro lado, a presença do homem interfere cada vez mais na segunda, então quem sabe não se caracteriza uma nova confluência entre ambas, com a instauração de uma “seleção ecológica artificial”? hehehe quantos textos/papos dá isso?)
beijos!
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