Design, inovação e outras coisinhas a mais.

Um objeto costurando histórias.

Um dia desses, minha vó comunicou uma bombástica notícia que causou abalos gigantes em minha família: Ela disse que não ia mais costurar!
Quando indagada por todos, através de um “PORQUÊ???” em coro, ela justificou sua decisão de uma forma simples, mas estranha para todos nós, nascidos no pós guerra: “porque minha máquina pifou de vez”.
Como nós - acostumados a este mundo promíscuo de trocas em massa de celular a cada nova função que a tecnologia consegue enfiar naquele paralelepipedozinho – podemos compreender esta frase? Porque não comprar uma nova?
Por trás da resposta simples está uma bonita historia:
Em mil novecentos e cinquenta, minha vó, aos 23 anos, ganhou uma ótima maquina de costura. Engana-se quem imaginou uma daquelas maquinas-mobília com pedal manual de antigamente. Fui a primeira máquina elétrica a ser comercializada. Era alemã e tinha pedal de controle de velocidade e tudo.
Nos primeiros anos desta parceria, minha vó ajudou meu avô nas contas da casa, no período em que ele cursava a faculdade, costurando “pra fora”. Ela fazia incríveis vestidos de noiva que minha mãe lembra até hoje da riqueza dos detalhes.
Quando o marido se formou, ela e sua maquina de costura voltaram-se a família. Desde então, muitas roupas foram feitas, muitos concertos de roupas, muitas cortinas, panos, enxovais, e muita moda. Minha vó tem avidez por novidade e tudo que ela ouvia falar ou via nos programas de tarde da TV, ela reproduzia em sua maquina e, claro, sem nunca perder a oportunidade de dar um toque pessoal nestes trabalhos. Sua máquina estava sempre ao seu lado, obedecendo seus comandos com maestria e intuindo suas ações. Uma parceria perfeita que embelezou quatro gerações da família.

elna6 - elna6

Nos últimos anos, a máquina começou a demonstrar sinais de cansaço. Passar dos cinquenta foi duro para ela… Meu tio fazia concertos e ela demonstrava excelentes sinais de recuperação. No entanto, depois de um tempo, os problemas retornavam. Sua parceira, ao contrario, se sentia a cada dia mais ávida por novidade.
Um de seus netos resolveu inventar moda também e foi fazer faculdade de design de produto. Atento aos dotes de sua vó, começou a encomendar estranhos projetos a ela: uma pequena bolsa que se transformava em uma pasta de desenho, uma bucha de banho para lavar as costas, ajustes complexos em roupas compradas em brechó. Os resultados eram sempre excelentes.
Mas, aos poucos, a maquina deixou de acompanhar a modernidade de sua parceira e, um dia, ela acabou falecendo. Não foi necessario fazer um inventário de seu patrimônio, pois este já tinha sido distribuído em vida para todas as pessoas de sua estima.
A morte da máquina não foi vista com choque por sua parceira. Ela reagiu com normalidade ao fim deste ciclo e acabou largando a costura para se dedicar mais as outras tarefas que sempre lhe agradaram: tricô, crochê, palavras cruzadas, cuidar dos netos, cozinhar, comer e ler muitos livros no estilo “Sabrina”. Como normalmente acontece, o choque foi maior para os fãs. Assim como ocorreu quando os Beatles acabaram, estes não se conformavam e não conseguiam entender o motivo, embora ele fosse tão obvio:
Prosseguir com uma jovem e inexperiente parceira seria como o Tinoco arrumar outro parceiro depois da morte do seu irmão Tonico. Seria estranho ouvir no radio “Com vocês: Carlito e Tinoco!!!” ou algo parecido.
O pior de tudo seria o tempo que demoraria para a parceira se aprimorar para, possivelmente, depois de alguns anos ocorrer um novo falecimento, já que, hoje em dia, as maquinas desistem de viver muito antes daquela sua antiga parceira…

Realmente não seria uma boa idéia….

Existem objetos que são insubstituíveis e existem os celulares…

Dedicado a máquina Elna (in memoriam) e a Dona Cida.

BARÃO



 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 740

7 respostas para “ Um objeto costurando histórias. ”

  1. Júlia Abril 20th, 2009 10:34

    Barãaaaaaaaaaaaao! Amei esse seu post! Sabe que me vi em vc! Minha avó, assim como a sua, passou a vida costurando e também fazia vestidos de noiva, roupas mudérrrrnas, ajustes nas roupitchas de todo mundo… Ai ai, que coisa boa… Sabe que no meu trabalho tem uma história de uma menina que “herdou” a velha máquina Singer de sua avó… Virou a “marca que marca” dela
    Aposto que vc não vai deixar ninguém jogar essa máquina fora… ela é muito linda!!!! Deixa nãaaaao… Se não me manda ela que eu guardo! ehehe
    beijos querido!
    Vou mandar esse link para as MEMOcinhas

  2. juliana Abril 23rd, 2009 03:17

    Ai Barão…
    quase chorei com essa história!!q lindo..
    Máquinas de costura tem poderes!! Elas tem,!! Elas te prendem ali com o tec tec tec, gerando uma ansiedade enorme pra ver levantar daquela mera linha tracejada uma forma! Eu sou ansiosa por culpa da minha velha Elgin!! : )
    Mas isso é limite meu..que não sabe respirar com cada tec tec e viver intensamente aquele pontinho,,como disse uma amiga: “imersão!!emersão!!imersão!!emersão!!”

    E a bolsa pasta!! Quanto devemos a ela, não?? :)
    adorei!
    bjiins saudosos

  3. wilson Abril 26th, 2009 10:53

    cara…..
    sempre leio o blog e meu deus, o povo sabe o q é uma maquina de costura!!!
    pelo incrveu que pareça, eu apenas com meus 21 anos tambem me vejo no meio dessa coisa de maquinas. Trabalho com meu pai, mexendo e arrumando maquinas e tambem faço faculdade de design.
    com a historia que contou, eu, atendendente e provisoriamente mecanico de maquinas vi pelo menos mais de cem historias que escutei, vividas por uma maquina. A maquina de costura não apenas modela roupas, mas como vc disse, vive com sua dona toda sua criatividade,sua inovaçao. Através de sua historia pode se provar que existe design nao só no novo, como no celular e sua forma, mas tambem no antigo, como na parceria por toda vida de sua vó e a maquina.

    Wilson Godoy..
    no momento cursando design…

  4. Monica Maio 11th, 2009 18:25

    Barão,
    Adorei sua história e como estou iniciando nesta arte de “unir histórias” te mando o meu blog http://blogdapontalti.blogspot.com/
    um abraço

  5. Fernando Galdino (Hymen) Maio 12th, 2009 12:24

    Pô Barão, altos posts.

    Por essas e outras q tu ajudou a formar meu carater profissional (pessoal no interim.

    Parabéns man.

  6. Joao Maio 12th, 2009 22:22

    Muito bom o post. Hoje em dia por esse caráter descartável dos produtos perdemos essa parceria com as coisas ao nosso redor, incluindo as pessoas.

  7. Florinda Maio 20th, 2009 13:41

    ai baronets, que lindo! lembrei do meu avô, que era alfaiate e nunca se acostumou com máquina nova. gostava mesmo da velha, de pedal, herdada da avó dele. aliás, estou prestes a levar essa relíquia pra casa. pense numa senhora máquina! tem mais de 100 anos e pifou só no fim da vida de seu parceiro. agora, mesmo que sua função não seja mais a mesma (provavelmente usarei como móvel e colocarei um vaso de flores em cima…), me contento com sua simples presença, susurrando histórias e costurando os fios da memória.

Deixe uma resposta.