Arquivo de Setembro de 2009
HISTÓRIA DAS COISAS
Esse foi um projeto italiano o qual fomos convidados para participar algum tempo atrás. Trata-se de uma exposição seguida de um livro sobre os objetos de diversos designers ao redor do mundo. Eles carregam histórias, criam laços afetivos com seus donos e revelam muito de nossa intimidade. Abaixo meu texto, que representou o Nódesign..
Abraços
Léo
“A taça de vinho”
Foi um presente da minha namorada, minha atual esposa.
No aniversário de namoro em outubro de 2002 ao completar 1 ano juntos ela me preparou uma surpresa.
Como produtora de objetos em filmes publicitários e longa metragens, é sua função pesquisar, especificar e produzir os objetos que comporão o cenário. Sua profissão faz com que possua um repertório imenso sobre objetos de todos os tipos, idades e regiões. Nos conhecemos dessa maneira, quando costumava alugar objetos para suas produções no Nódesign. Com facilidade extrema para criar cenários e produzí-los rapidamente, em nosso primeiro aniversário de namoro, ela criou e produziu uma cena exclusiva na sala de casa. Alugou móveis e objetos para criar um clima íntimo para a comemoração. Haviam na sala um tatame, uma banheira antiga cheia de água, uma biombo que tapava a janela, uma mesa baixa, pétalas de rosas, uma luminária com luz baixa, etc.
Lá estavam também as taças. Foram cuidadosamente escolhidas para podermos brindar nosso relacionamento. Uma taça fina e elegante esverdeada para combinar com os outros acessórios da noite. Dentre todos os objetos, as Taças foram os únicos comprados para ficarem conosco após a ocasião. Como representariam o laço entre nós, não havia sentido brindarmos o momento para depois devolve-las com o restante do material.
A partir desse dia o par de taças faz parte dos nossos momentos especiais. Não apenas para os do casal mas para outros momentos importantes como também os profissionais. Lembro-me que em certa ocasião ao fecharmos um contrato importante no escritório eu levei o par de taças para brindar com meus sócios. Virou uma espécie de certificadora de momentos importantes.
Em uma festa realizada em casa uma delas foi quebrada por um amigo. Faltavam copos necessários para todos os convidados e então as taças entraram em campo. Infelizmente uma não resistiu. Até hoje não foi reposta. O fato de usarmos apenas em ocasiões específicas fazia com que ela estivesse em posições de menor destaque dentro de casa apesar de ser extremamente bonita. Já que não era de uso diário não necessitava de acesso rápido e era guardada em armários. Geralmente no alto..
Recentemente sua história começou a mudar. Comecei a apreciar com mais intensidade vinhos desde minha lua de mel onde viajamos pela argentina e conhecemos Mendoza, uma cidade belíssima no pé dos Andes uma das principais regiões produtoras de vinhos da América Latina. Visitamos muitas viniculturas visualizando o processo produtivo, degustando diversos vinhos aprendendo suas infinitas combinações. Esse conhecimento despertou em mim um interesse maior pela bebida. Ao chegar em São Paulo comecei a degusta-los com maior freqüência. A taça antes colocada no alto do armário passou para baixo, perto de minhas mãos e dos copos de uso diário. Tornou-se minha companheira, peça importante no ritual para apreciar um vinho. Percebi que ao longo desse tempo ela se tornou uma peça indispensável sendo que sem ela até mesmo o gosto do vinho é diferente. Pelo menos é assim que sinto… Sua largura, leveza, espessura, altura são elementos que fazem dela uma peça única, difícil de ser substituída. Dessa forma esse objeto acompanha uma parte de minha vida e vem escrevendo sua história ao longo desse tempo. Assim como o recebi durante meu primeiro ano de namoro, adquiriu nova importância após meu casamento. Testemunhou o inicio do namoro como também o inicio do casamento e de todos os momentos importantes celebrados com elas em mãos. É realmente algo valioso, um símbolo de importância.
Léo
4 comentários »Dor de dente? Ora… arranque-o!

Foto: Felipe Caruso/Folha Imagem
Recentemente, a empresa Construfert (contratada pela prefeitura para executar a limpeza pública na região central de São Paulo) acabou com um bom projeto de design vernacular e o substituiu por uma solução mais cara e ineficiente.
Os varredores de rua, com toda a sua experiência e autoridade na atividade de varredura, resgataram a clássica vassoura artesanal de palha para melhorar o seu trabalho. Essa vassoura é confeccionada por eles próprios e é feita de folhas secas de palmeiras e coqueiros dos jardins da região. Segundo os varredores, a vassoura de palha é mais leve e torna o trabalho muito mais fácil e eficiente do que os “vassourões” fornecidos pela Construfert. Em depoimentos, os varredores alegaram que os “vassourões” deixam o ombro dolorido, cansam muito mais e não limpam direito.
Segundo a empresa, as vassouras de palha foram proibidas e substituídas para proteger o ambiente. Alguns varredores estavam arrancando das árvores as folhas ainda verdes, em vez de esperá-las cair.
Para esses profissionais, a vassoura de palha é um produto comprovadamente melhor, em muitos aspectos, do que o “vassourão”. Então, não seria mais inteligente resolver esse problema pontual (da extração da sua matéria-prima) ao invés de eliminá-lo e, com isso, criar novos problemas?
Talvez, com a solução da extração, seria possível criar novos empregos (tanto com a coleta do material quanto com a confecção da vassoura), aproveitar melhor o “lixo” (folhas secas) de outros parques, melhorar a consciência ecológicas das pessoas envolvidas, diminuir o custo da limpeza pública e melhorar um produto, tornando-o mais sustentável.
Será que realmente vale a pena arrancar o dente sem tentar curá-lo?
Abs,
Cândido Azeredo (Nódesign).
Como nascem os paliteiros
Um dia ele recebeu uma solicitação de um cliente: “Precisamos ter um paliteiro em nossa linha de produtos”. Ele adorou aquela oportunidade!
“Puxa, finalmente terei a chance de tentar resolver este inconveniente histórico que são os paliteiros.”
Ao sair da reunião ele fez o cronograma do trabalho. A pesquisa já teria inicio no dia seguinte. Mas, naquela noite, sua cabeça resolveu pesquisar antes da hora e seu cronograma nada poderia fazer para impedi-la de seguir em frente. Na cama, sua cabeça começou a vasculhar seu histórico com palitos:
… Houve aquele dia em que eu me espetei… E aquela vez em que eu tive que abrir a tampa de um paliteiro para pegar um palito… Teve aquele outro dia em que eu abri uma caixinha de palitos e pressionei meu dedo no topo e dois palitos ficaram fincados no meu dedo sem furar a minha pele… Tinha aquele brinquedo da minha infância onde eu pegava as varetas pressionando sua ponta… Tem as agulhas de crochê da minha vó… Os palitos de churrasco…

Muitas referências, memórias, associações livres vieram a sua mente. A maioria das imagens reforçava seu ódio aos paliteiros convencionais que tanto desconforto causa devido à ineficiência em cumprir uma função, aparentemente, tão simples. Porque será que o mundo consome este produto há tanto tempo se ele não funciona direito?
Nos dias que se seguiram, o processo de desenvolvimento do novo paliteiro evoluiu. Foram feitas pesquisas de campo, visita a supermercados, muitos testes com palitos e paliteiros, entrevistas e etc… Depois foram realizados Brainstormings e clínicas criativas.
No dia combinado, computador em mãos e andar triunfante, ele foi apresentar o projeto ao seu cliente. Mostrou um roteiro extremamente didático para fazê-lo entender sua linha de raciocínio e, depois apresentou sua criação:
“Concluímos que o grande problema do paliteiro não reside em sua forma, mas no atrito dos palitos. Portanto, nós projetamos novos palitos em resina biodegradável com superfície lisa. Desta maneira, nenhum palito ficará mais emperrado no interior do paliteiro. Pode conferir.”
Um modelo funcional comprovou para o cliente que a solução era realmente muito eficiente. Enquanto o cliente testava, ele ia explicando todas as vantagens de sua criação. Seu rosto ficou ainda mais confiante. Seu peito mais aberto e seus gestos ainda mais expansivos. Então o cliente deu sua resposta:
“É. A solução é realmente muito interessante. No entanto, não é o que necessitamos. Nós precisamos de um novo paliteiro e não de um novo palito.”
Frustrado, ele retornou para o escritório pensando como é difícil ter que criar produtos e não soluções. Pensava: “Eles precisam de novos paliteiros, mas o mundo precisa de novos palitos!”
À noite, nova insônia produtiva. E se o paliteiro apertasse a ponta dos palitos obrigando-os a escapar em uma fenda lateral? E se uma mola levantasse um palito por vez? E se pequenos micro compressores fizessem um palito flutuar? Flutuar? Nesta hora ele já estava sonhando… De repente, ele estava em uma plantação de palitos. Eram plantas de flores pontiagudas com miolos formados por espirais de geometria impecável feito de palitos. O gramado de espetos fazia com que a experiência de andar fosse aterrorizante. A única solução era abrir uma trilha colhendo os palitos e colocando-os em paliteiros.
Dias, noites, pesquisas, brainstormings e clinicas depois, lá estava ele novamente em frente ao seu cliente para mostrar suas novas criações. Eram surpreendentes maneiras de acondicionar os palitos. Pequenos recipientes, cada um com um sistema especifico para retirar um palito por vez de seu interior. Eram soluções que resolviam de uma vez por todas o conflito cotidiano dos usuários com seus paliteiros. A partir dali, comer provolones, pescar azeitonas ou retirar um filezinho dos dentes, tornar-se-iam tarefas mais simples.
A resposta do cliente:
“É. As soluções são realmente muito interessantes. No entanto, não é o que necessitamos. Nós precisamos de um novo paliteiro e não de um novo produto. O consumidor, quando passar o olho rapidamente pela gôndola de um supermercado, precisa reconhecer a forma de um paliteiro. Ele quer comprar um paliteiro bonitinho.”
No carro, retornando para o escritório, ele enfrentou um grande engarrafamento. Neste meio tempo, ele sacou o manual do carro, uma bic e começou a desenhar no verso uns paliteiros bonitinhos. Chegando em seu destino, pegou os desenhos e pediu para seu funcionário passar a limpo e ilustrar. Com os desenhos prontos, ele enviou por e-mail para seu cliente e foi para a casa.
No dia seguinte ele recebeu em sua caixa de e-mail a seguinte resposta:
“Excelente!
Muito obrigado!”
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Abs,BARÃO
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