Como nascem os paliteiros
Um dia ele recebeu uma solicitação de um cliente: “Precisamos ter um paliteiro em nossa linha de produtos”. Ele adorou aquela oportunidade!
“Puxa, finalmente terei a chance de tentar resolver este inconveniente histórico que são os paliteiros.”
Ao sair da reunião ele fez o cronograma do trabalho. A pesquisa já teria inicio no dia seguinte. Mas, naquela noite, sua cabeça resolveu pesquisar antes da hora e seu cronograma nada poderia fazer para impedi-la de seguir em frente. Na cama, sua cabeça começou a vasculhar seu histórico com palitos:
… Houve aquele dia em que eu me espetei… E aquela vez em que eu tive que abrir a tampa de um paliteiro para pegar um palito… Teve aquele outro dia em que eu abri uma caixinha de palitos e pressionei meu dedo no topo e dois palitos ficaram fincados no meu dedo sem furar a minha pele… Tinha aquele brinquedo da minha infância onde eu pegava as varetas pressionando sua ponta… Tem as agulhas de crochê da minha vó… Os palitos de churrasco…

Muitas referências, memórias, associações livres vieram a sua mente. A maioria das imagens reforçava seu ódio aos paliteiros convencionais que tanto desconforto causa devido à ineficiência em cumprir uma função, aparentemente, tão simples. Porque será que o mundo consome este produto há tanto tempo se ele não funciona direito?
Nos dias que se seguiram, o processo de desenvolvimento do novo paliteiro evoluiu. Foram feitas pesquisas de campo, visita a supermercados, muitos testes com palitos e paliteiros, entrevistas e etc… Depois foram realizados Brainstormings e clínicas criativas.
No dia combinado, computador em mãos e andar triunfante, ele foi apresentar o projeto ao seu cliente. Mostrou um roteiro extremamente didático para fazê-lo entender sua linha de raciocínio e, depois apresentou sua criação:
“Concluímos que o grande problema do paliteiro não reside em sua forma, mas no atrito dos palitos. Portanto, nós projetamos novos palitos em resina biodegradável com superfície lisa. Desta maneira, nenhum palito ficará mais emperrado no interior do paliteiro. Pode conferir.”
Um modelo funcional comprovou para o cliente que a solução era realmente muito eficiente. Enquanto o cliente testava, ele ia explicando todas as vantagens de sua criação. Seu rosto ficou ainda mais confiante. Seu peito mais aberto e seus gestos ainda mais expansivos. Então o cliente deu sua resposta:
“É. A solução é realmente muito interessante. No entanto, não é o que necessitamos. Nós precisamos de um novo paliteiro e não de um novo palito.”
Frustrado, ele retornou para o escritório pensando como é difícil ter que criar produtos e não soluções. Pensava: “Eles precisam de novos paliteiros, mas o mundo precisa de novos palitos!”
À noite, nova insônia produtiva. E se o paliteiro apertasse a ponta dos palitos obrigando-os a escapar em uma fenda lateral? E se uma mola levantasse um palito por vez? E se pequenos micro compressores fizessem um palito flutuar? Flutuar? Nesta hora ele já estava sonhando… De repente, ele estava em uma plantação de palitos. Eram plantas de flores pontiagudas com miolos formados por espirais de geometria impecável feito de palitos. O gramado de espetos fazia com que a experiência de andar fosse aterrorizante. A única solução era abrir uma trilha colhendo os palitos e colocando-os em paliteiros.
Dias, noites, pesquisas, brainstormings e clinicas depois, lá estava ele novamente em frente ao seu cliente para mostrar suas novas criações. Eram surpreendentes maneiras de acondicionar os palitos. Pequenos recipientes, cada um com um sistema especifico para retirar um palito por vez de seu interior. Eram soluções que resolviam de uma vez por todas o conflito cotidiano dos usuários com seus paliteiros. A partir dali, comer provolones, pescar azeitonas ou retirar um filezinho dos dentes, tornar-se-iam tarefas mais simples.
A resposta do cliente:
“É. As soluções são realmente muito interessantes. No entanto, não é o que necessitamos. Nós precisamos de um novo paliteiro e não de um novo produto. O consumidor, quando passar o olho rapidamente pela gôndola de um supermercado, precisa reconhecer a forma de um paliteiro. Ele quer comprar um paliteiro bonitinho.”
No carro, retornando para o escritório, ele enfrentou um grande engarrafamento. Neste meio tempo, ele sacou o manual do carro, uma bic e começou a desenhar no verso uns paliteiros bonitinhos. Chegando em seu destino, pegou os desenhos e pediu para seu funcionário passar a limpo e ilustrar. Com os desenhos prontos, ele enviou por e-mail para seu cliente e foi para a casa.
No dia seguinte ele recebeu em sua caixa de e-mail a seguinte resposta:
“Excelente!
Muito obrigado!”
___________________
Abs,BARÃO
| Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 865
7 respostas para “ Como nascem os paliteiros ”
Deixe uma resposta.
Muito bom, Barão, histórias que a gente conhece bem. Tá muito legal o blog, parabéns e um abraço procês.
Adorei o post. Já vivenciei várias histórias parecidas…
Parabéns pelo blog, tá muito legal mesmo!!!
Depois de tudo isso , só me cabe … : Excelente !
Adorei seu relato, Barão. Muitas vezes, somos chamados para resolver apenas a manifestação do problema. No geral, isso acontece porque ainda não sacaram que aquilo não era o problema em si ou porque não visualizaram como cortar o mal pela raiz. Ainda assim, muitas vezes, vale correr o risco de apresentar aquilo que o cliente “acha que não precisa”.
É tipo o médico que logo receita remédios, mas não resolve a fonte do problema. Nós designers somos tão estranhos quanto qualquer iniciativa mais holística na medicina. Nascemos na época errada!!!!
Quando comecei a ler já sabia que era do Barão, hahaha.
Gostar do que faz é quando te pedem pra fazer algo mais fácil e vc fica chateado.
Acontece man…
Parabéns pelo Blog Barão….ta muito bom!
E quanto ao relato….passar por isso faz de nós não só designers, mas sim, designers cada vez melhores! o/