PELES URBANAS
No meu último ano da faculdade fiz um projeto de intervenção plástica chamado “Peles Urbanas”. O objetivo era observar e analisar o processo de “cicatrização” da cidade. Em um muro coberto por cartazes promocionais cortei e arranquei uma amostra dessa cobertura colada, como se fosse um procedimento cirúrgico. Então, pintei a área recortada de vermelho para marcar simbolicamente a “ferida na pele”. Depois, observei durante duas semanas o que ocorreu.
Em uma semana a ferida exposta “naturalmente” se fechou. Outros cartazes foram colados sobre os anteriores e apenas uma depressão, devido à espessura das laterais do corte, ficou como marca.
Os quadrados de pele (foram 4 pedaços de 1x1 metro retirados de diferentes partes da cidade) ficaram dependurados no museu da FAU como se fossem postas de carne espetadas em ganchos na vitrine do açougue. Foi curioso.
Há pouco tempo atrás tivemos um exemplo dessa capacidade regenerativa da cidade. Um comboio de 150 grafiteiros e pichadores “curaram” cerca de um quilômetro de muros dos dois lados da avenida 23 de Maio para protestar contra o “Cinza Kassab” (vai virar nome de escala Pantone!) colorindo e ilustrando novamente esses muros, antes estampados com grafites e pichações, que foram autoritariamente “higienizados” pela prefeitura de Sampa.
Algumas dúvidas surgiram de ambas experiências: Quem tem o direito de intervir nessas peles urbanas, seus cidadãos ou o poder público? Ambos? Então, sempre existirá um conflito urbano para que haja um ajustamento de desejos? Esse conflito e troca de pele é saudável e natural? O que aconteceria se cada um de nós colocasse sua marca nessas peles? Como seria a cicatrização?
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